domingo, 19 de junho de 2016

Solidariedade humana ??????

O que é solidariedade? Para os egoístas a palavra reverbera perturbadora. Incomoda porque o seu verdadeiro significado impõe mobilização de recursos em favor do próximo. Fundamenta-se em valores que não conseguimos quantificar. Mas, o que é ser solidário? É sentir a necessidade íntima de partilhar, é querer ir mais além, é perceber que a alegria de dar é indiscutivelmente superior à de receber; é estender a mão ao próximo sem olhar sua raça, condição gênero, conta bancária. A internalização do sentimento solidário torna-nos efetivamente pessoas melhores.  A solidarização é o “sentimento de identificação com os problemas de outrem, o que leva as pessoas a se ajudarem mutuamente”(1). É uma maneira de assistência moral e espiritual que se concede a alguém, seja por simpatia, piedade ou senso de justiça. No sentido de laço de união fraternal que une as pessoas, pelo fato de serem semelhantes, chamamos de solidariedadehumana. É compromisso pelo qual nos sentimos em obrigação umas em relação às outras, ou seja, é a interdependência e a reciprocidade.
Infelizmente vivemos num ambiente social de quimeras postergadas, de sonhos frustrados, de mentes cansadas, numa sociedade de nódoas morais, de “mentes vazias” e atoladas nas futilidades hodiernas, isoladas no cipoal do “ego” enregelado. Vivemos completamente mergulhados na vida egocêntrica, que nos remete irreversivelmente à solidão. O Espírito Emmanuel ressalta que “a técnica avançou da produção econômica em todos os setores, selecionando o algodão e o trigo por intensificar-lhes as colheitas, mas, para os olhos que contemplam a paisagem mundial, jamais se verificou entre os encarnados tamanha escassez de pão e vestuário. Aprimoraram-se as teorias sociais de solidariedade e nunca houve tanta discórdia”(2).
Os males que afligem a Humanidade são resultantes exclusivamente do egoísmo (ausência de solidariedade). A eterna preocupação com o próprio bem-estar é a grande fonte geradora de desatinos e paixões desajustantes. A máxima “Fora da Caridade não há Salvação”(3) é a bandeira da Doutrina Espírita na luta contra o egoísmo. A solidariedade é a caridade em ação, a caridade consciente, responsável, atuante, empreendedora.  Os preceitos espíritas contribuem para o progresso social, deteriora o materialismo, faz com que os homens compreendam onde está seu verdadeiro interesse. O Espiritismo destrói os preconceitos “de seitas, de castas e de raças, ensina aos homens a grande solidariedade que deve uni-los como irmãos”(4). Destarte, segundo os Benfeitores espirituais, “quando o homem praticar a lei de Deus, terá uma ordem social fundada na justiça e na solidariedade”(5).
A recomendação do Cristo “que vos ameis uns aos outros como eu vos amei”(6) assegura-nos o regime da verdadeira solidariedade e garante a confiança e o entendimento recíproco entre os homens. A solidariedade na vida social é como o ar para o avião.
O avião, apesar de toda tecnologia, se não tiver ar ele não voa. A prática desse sentimento vivifica e fecunda os germens que nele existem, em estado latente, nos corações humanos. A Terra, local de provação e de exílio, será pacificada por esse fogo sagrado e verá exercido na sua superfície a caridade, a humildade, a paciência, o devotamento, a abnegação, a resignação e o sacrifício, virtudes todas filhas do amor e da solidariedade.
É imprescindível darmo-nos, através do suor da colaboração e do esforço espontâneo na solidariedade, para atender, substancialmente, as nossas obrigações primárias, à frente do Cristo(7).
Ante as responsabilidades resultantes da consciência doutrinária, que nos impõe a superar a temática de vulgaridade e imediatismo ante o comportamento humano, em larga maioria, a máxima da solidariedade apresenta-se como roteiro abençoado de uma ação espírita consciente, capaz de esclarecer e edificar os corações, com a força irresistível do exemplo.
Jorge Hessen
 Fontes:
(1)       Cf. Dicionário Caldas Aulete
(2)       Xavier, Francisco Cândido.  “Fonte Viva” ditada pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1992
(3)       Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2001, Cap. XV
 4)       Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2000,  pergunta 799
(5)       idem  perg.
(6)       Jo 15.12
(7)       Xavier, Francisco Cândido.  “Fonte Viva” ditada pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1992
 
Publicado na Revista Espírita de Campos

CARIDADE

Por que o comportamento caridoso não é algo espontâneo e natural em muitos de nós? Quando nos envolvemos com a caridade, o que vale mais: a quantidade ou a qualidade? Quais são as suas formas de expressão? Com o Espiritismo, a caridade abarca outros aspectos e opções? O autêntico comportamento caridoso sempre está a esperar o reconhecimento, a gratidão ou qualquer outro tipo de recompensa?

         Trata-se de uma constante, em nossa vida, a busca de alegria, de satisfação íntima e de realizações em seus mais variados aspectos.
         É fato para a grande maioria das pessoas que, quando elas se encontram unicamente empenhadas nas próprias buscas, não percebem que aqueles que com elas convivem podem estar enfrentando dificuldades muito mais intensas que as suas.  Sendo assim, deixam de amparar o semelhante, visto acreditarem que, somente com a solução de seus desafios, é que se tornarão aptas para acudir o outro.
         O comportamento caridoso não é algo espontâneo e natural em muitos de nós. Sê-lo, em determinadas circunstâncias, ainda nos causa um certo desconforto. E quantas são as desculpas que produzimos para não nos envolvermos com o próximo! É a falta de tempo, de recursos financeiros, de jeito... Por outro lado, quantas são as situações em que nos cobramos uma atitude de maior solicitude! Quantas são as atenções que dispensamos, justamente para abrandar nossas cobranças íntimas!
         O Espírito Hammed ressalta: “Muitas vezes, ‘doamos coisas’ ou ‘favorecemos criaturas’ a fim de proporcionar a nós mesmos, temporariamente, uma sensação de bem-estar, de poder íntimo ou de vaidade pessoal.”  [1]
         Mas Jesus ensinou que, no ato de oferecimento, o que vale são as motivações e intenções que geram tal comportamento. Temos, então, o clássico exemplo da oferta da viúva pobre. (Mc 12:41-44)
         Ela, ao colocar apenas duas moedas no gazofilácio (local reservado nos templos às oferendas) – diferentemente de outros que lá haviam colocado grandes quantias – fez com que o Cristo pronunciasse as seguintes palavras aos seus discípulos: “Em verdade vos digo que esta viúva pobre depositou no gazofilácio mais do que fizeram todos os ofertantes. Porque todos eles ofertaram do que lhes sobrava; ela, porém, da sua pobreza deu tudo quanto possuía, todo o seu sustento.”  [2]
         Para muitos indivíduos, a caridade consiste, basicamente, em doar aquilo que não lhes tem mais serventia e utilidade, acreditando que esse gesto seja o suficiente para caracterizá-los como pessoas caridosas.
         Entretanto, a caridade é uma disposição íntima ativa e dinâmica, que se manifesta das mais variadas formas: em pensamentos de bondade, em conselhos úteis, em alimento e recursos na hora certa, em força que reanima...
         Tanto assim é, que o léxico traz como sua definição:  “disposição favorável em relação a alguém em situação de inferioridade (física, moral, social etc.); compaixão, benevolência, piedade.”  [3]
         O autêntico comportamento caridoso é aquele que não espera ou exige reconhecimento, gratidão ou qualquer tipo de recompensa. E é justamente esse desapego dos resultados que caracteriza o indivíduo caridoso, pois ele se disponibiliza ao outro pela simples satisfação que isso lhe proporciona.

****
         O Espírito Cairbar Schutel ensina:

            “A caridade pressupõe necessariamente convívio. Afinal, caridade não é somente destinar verbas às obras filantrópicas, mas sim participar da vida em família, dos problemas dos semelhantes, das dificuldades dos necessitados, abrindo o coração para o mundo.”  [4]

         O ser humano vive em comunidade. Portanto, faz parte da caridade a criatura ser integrada ao meio social em que se encontre.
         Sem dúvida, a doação de alimentos, de roupas, de medicamentos e de quantias financeiras são valiosos recursos para os que sofrem e se encontram em dificuldades. E pelo fato de essas doações serem portadoras de mensagens de socorro, de esperança, de alívio e conforto, muitas pessoas conseguem recuperar a própria dignidade, encontrando, assim, motivações para continuar acreditando e vivendo.
         Mas, perante os postulados espíritas, podemos afirmar que as doações de natureza material, muito embora importantíssimas em situações variadas, representam tão somente a caridade em suas primeiras manifestações. Com o Espiritismo, a caridade abarca outros aspectos e opções, ampliando suas possibilidades.
         Na questão 886, de O LIVRO DOS ESPÍRITOS, temos: “Qual o verdadeiro sentido da palavra caridade, como entendia Jesus”? [5]
         Resposta:
            Benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias, perdão das ofensas. A caridade, segundo Jesus, não está restrita à esmola. Ela abrange todas as relações que temos com os nossos semelhantes, quer sejam nossos inferiores, nossos iguais ou superiores. Ela nos ordena a indulgência porque nós mesmos temos necessidade dela.

         Ser benevolente é ter boa vontade para com os outros. É se deixar guiar pela amabilidade, pela generosidade e solidariedade, pelo interesse para com o bem-estar do outro, indistintamente.
         Como haver caridade sem boa vontade? Ou, segundo o próprio dicionário, sem essa “disposição favorável em relação a alguém”, principalmente quando ele se encontra em dificuldades?
         Porém, nesta mesma definição, caridade é sinônimo de piedade. E segundo o entendimento do Espírito Michel:

         O sentimento mais próprio para vos fazer progredir, domando vosso egoísmo e vosso orgulho, o que dispõe vossa alma à humildade, à beneficência e ao amor ao próximo é a piedade! Essa piedade que vos comove até as entranhas, diante dos sofrimentos dos vossos irmãos, que vos faz lhes estender mão segura e vos arranca lágrimas de simpatia. [6]

         Cada comportamento de benevolência tem a possibilidade de nos preencher com pensamentos nobres e sentimentos de compaixão e piedade.
         No entanto, o Espírito Joanna de Ângelis define a benevolência como “um sentimento de profundo amor pelo seu próximo, de compreensão pelos seus atos.”  [7]
         E é neste ponto que podemos destacar a indulgência: capacidade de aceitar e tolerar as atitudes alheias, julgando com bem menos severidade seus erros e equívocos. Mas isso se trata da caridade mais difícil de ser praticada, a caridade moral, porque simplesmente não sabemos lidar com as imperfeições alheias, compreendendo-as!
         O Espírito Irmã Rosália enfatiza:

            A caridade moral consiste em se suportar uns aos outros. (...) Há um grande mérito, crede-me, em saber se calar para deixar falar um mais tolo; e ainda aí está um gênero de caridade. Saber ser surdo quando uma palavra de zombaria escapa de uma boca habituada a escarnecer; não ver o sorriso de desdém que acolhe a vossa entrada entre pessoas que, frequentemente, erradamente, se creem acima de vós, enquanto que, na vida espírita, a única real, estão algumas vezes bem longe disso; eis um mérito, não de humildade, mas de caridade; porque não anotar os erros de outrem é caridade moral. [8]

         E o porquê de nossa dificuldade perante os defeitos alheios? Simplesmente, porque não sabemos entender e trabalhar nossas próprias deficiências!
         Quando alguma situação nos exige o exercício dessa tolerância, a reação mais comum é nos aferrarmos aos próprios conceitos, concepções e melindres. Porém, quando nos conscientizamos do esforço que precisamos empreender para superar nossas limitações, nos habilitamos à compreensão da luta alheia. Quando nos percebemos na condição de aprendizes da vida, constatamos que o outro também o é.
         Por fim, o terceiro aspecto da caridade na definição espírita: o perdão.
         Trata-se de um ponto delicadíssimo, porque a maioria de nós ainda não consegue elaborar de maneira eficiente o próprio orgulho ferido. Por isso é que se diz que “perdoar é libertar-se”, ou seja, desvincular-se da raiva e do ressentimento que mentalmente nos prendem ao outro.
         Como nos pautarmos pela caridade, guardando mágoa no coração? No entanto, é comum atuarmos em algum tipo de assistência social, ajudar, colaborar, mas não conseguir relevar uma ofensa recebida.
         A caridade do perdão é uma atitude que posiciona a pessoa que assim se comporta acima da média da sociedade contemporânea. É isso o que enfatiza Joanna de Ângelis: “O perdão, por sua vez, é o auge das conquistas íntimas que desidentificam o ser das próprias imperfeições, porque se dá conta do quanto necessita ser perdoado, naquilo que se refere às próprias fraquezas e delitos que tem cometido.” [9]

*****

         A caridade é tão fundamental para o ser humano, que ela é uma das leis de Deus para a evolução das criaturas. Não foi sem razão que os Espíritos Superiores ensinaram que “fora da caridade não há salvação”. [10]
         Como salvar-se, sem o trabalho construtivo no bem? Como poderíamos evoluir sozinhos, sem o próximo?
         Os homens precisam uns dos outros para aprenderem juntos, para trocarem afetos, para se auxiliarem mutuamente. Sem a caridade, ocorreria a frieza, a indiferença, enfim, o intensificar das dores e problemas humanos.
         Existe um pensamento que diz: “As mãos que oferecem flores ficam perfumadas”. Assim é a vida: ela sempre responde com o que fazemos. Praticando o bem, teremos o bem a nosso favor; amando, teremos o amor ampliado dentro de nós.


Desarme do ego

“Senhor, quando foi que te vimos com fome, com sede, forasteiro, nu, enfermo ou preso, e não te assistimos? Então lhes responderá: em verdade vos digo que sempre que o deixastes de fazer a um destes mais pequeninos, a mim o deixastes de fazer.” Mateus, 25:44 e 45.

            A palavra salvação, colocada por Allan Kardec, como título do capítulo XV de O Evangelho Segundo o Espiritismo, merece uma interpretação adequada ao que queremos demonstrar, pois ela tem um sentido mais psicológico que religioso. Salvar-se não se refere, necessariamente, a uma ameaça externa, nem tampouco a uma atitude para com o semelhante. Não há ameaça grave nem abismo a que o ser humano esteja ameaçado de cair, muito menos um inimigo contra o qual deva se precaver sob pena de perder a Vida. A salvação compreende a adoção de um estado de consciência que disponibilize a mente para a captação do mundo como ele se apresenta, isto é, sem os filtros impeditivos das defesas do ego. Salvar-se é predispor-se a viver a Vida sentindo suas conseqüências com maturidade e equilíbrio, quaisquer que sejam elas.   
            A salvação diz respeito a uma mudança de atitude psíquica. Trata-se de estabelecer um estado de espírito que possibilite a apreensão das leis de Deus sem os medos e os receios impregnados nos mecanismos de defesa que normalmente o ser humano adota frente à Vida e perante aquilo que desconhece.
            (...) Por outro lado, a afirmação de que fora da caridade não há salvação supõe que não existe outro estado possível. É determinante que se aja daquela forma sem a qual não se alcança o que se pretende. Nesse sentido, a caridade não é tão somente uma atitude externa ou um ato isolado. É também um estado de espírito, uma atitude psíquica. Uma predispõe à outra atitude mais elevada.
            A caridade é um meio, como uma ponte que nos leva de um lugar a outro, sem os perigos de se cair no abismo. Não se trata de uma atividade externa, como um compromisso social ou uma regra decorrente de um preceito religioso. Pode-se até iniciar-se a compreensão de seu significado pela prática externa, mas isso não garante alcançar seu sentido real. O exercício da caridade, como de qualquer atividade humana, leva à consolidação de seu sentido oculto. Em paralelo à prática, deverá ocorrer a internalização da mensagem significante, intrínseca à experiência.
            Num sentido psicológico, a caridade elimina as projeções, pois me possibilita enxergar o outro naquilo em que ele necessita e não no que desloco de minha personalidade e projeto nele. Doar algo a alguém é desprender-se de si mesmo vendo o outro como ele é. É não projetar sua sombra no outro. Ela, a caridade, leva o indivíduo a sair de si e a perceber o outro no momento evolutivo em que se encontra, permitindo que aquele que a exerce saia dos limites de seu ego e vá na direção do Self próprio e do outro.
            Esse deslocamento na direção do outro não se trata apenas de uma ação, mas, principalmente, de um sentimento; um estado de ser interior, de sentido de desprendimento.
            (...) Praticar a caridade pode ser apenas estar caridoso, isto é, realizar uma tarefa como outra qualquer. Quando se trata de um estado de espírito, o indivíduo écaridoso, isto é, trata-se de um traço de sua personalidade. Passar de um estado a outro requer, além de outros aspectos, conhecimento de si mesmo.
            (...) A atitude caridosa que atende somente a regras externas atua de modo contrário, ou seja, inflacionando o ego com sentimentos de vaidade e orgulho. Por mais que ajude o outro, a caridade aparente pode funcionar como um disfarce para a satisfação dos desejos de reconhecimento e destaque daquele que a pratica. Por outro lado, ser caridoso para com os demais pode significar uma fuga das próprias questões, de modo a não entrar em contato com sua sombra, evitando curar-se a si mesmo.
            O sentimento de caridade, complementado pela ação caridosa, diminui o poder do ego estimulando o processo de desenvolvimento espiritual. Psiquicamente, o indivíduo consegue melhor elaborar seus conteúdos inconscientes bem como aqueles conscientes que impedem a percepção de si mesmo. Esse sentimento provém do Espírito e se torna consciente com o exercício constante e persistente da ação caridosa.
            (...) As relações sociais naturalmente geram tensões, disputas e diferenças, colocando o ser humano em constante embate entre sua individualidade e as exigências do mundo. Ora ele afirma sua individualidade, ora ele busca sua identidade com o grupo social de que faz parte. O alívio dessas tensões significa o encontro consigo mesmo e a paz com o mundo. A caridade proporciona a necessária identidade com o mundo por trazer consigo a empatia nas relações com o próximo. Ela permite a identidade com o semelhante de tal forma que o indivíduo se sente uno com o outro, igualando-se a ele na sua necessidade. Psiquicamente diminui as barreiras que provocam tensões e elimina as vaidades do ego, aproximando as pessoas umas das outras.
            Estar em paz é garantia para o equilíbrio psíquico, previne os acessos abruptos do inconsciente e inibe as obsessões. Nesse estado, o indivíduo entra em contato com os Bons Espíritos, favorecendo sua motivação para viver. Semelhante estado se alcança com a vivência da caridade. Ela promove o bem estar psíquico preparando a mente para vencer as investidas persistentes dos conflitos oriundos das vidas passadas enraizados no inconsciente. A “fina camada” que separa a vida consciente da inconsciente, onde se encontram as experiências esquecidas da atual encarnação e das vidas anteriores, permite a passagem, para o aprendizado do Espírito, dos complexosafetivos oriundos de antigas situações dolorosas. Essa influência constante do passado sobre o presente é amenizada pelo sentimento de caridade, que age como um filtro, atenuando os efeitos sobre a vida consciente.
            A ação da caridade sobre o próximo é uma terapia fundamentada no amor que atinge principalmente aquele que a executa. [11]



Silvia Helena Visnadi Pessenda

REFERÊNCIAS

[1] HAMMED (espírito); SANTO NETO, Francisco do Espírito (psicografado por). Renovando Atitudes. 2. ed. Catanduva, SP: Boa Nova Editora. 1997. p. 207

[2] BÍBLIA. Português. Bíblia de estudo Almeida. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.

[3] MICHAELIS: moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo: Companhia Melhoramentos, 1998.

[4] SCHUTEL, Cairbar (espírito); GLASER, Abel (psicografado por). Fundamentos da reforma íntima. 3. ed. Matão: Casa Editora O Clarim, 2000. Cap. “Caridade e isolamento”. Item 870. p. 153.

[5] KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 100. ed. Araras, SP: IDE, 1996.

[6] KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 195. ed. Araras, SP: IDE, 1996. Cap. XIII. Item 17.

[7] ÂNGELIS, Joanna de (espírito); FRANCO, Divaldo Pereira (psicografado por). Diretrizes para o êxito. 2. ed. Salvador, BA: Livr. Espírita Alvorada, 2004. Cap. 3. p. 27.

[8] KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 195. ed. Araras, SP: IDE, 1996. Cap. XIII. Item 9.

[9] ÂNGELIS, Joanna de (espírito); FRANCO, Divaldo Pereira (psicografado por). Diretrizes para o êxito. 2. ed. Salvador, BA: Livr. Espírita Alvorada, 2004. Cap. 3. p. 27. Cap. 3. p. 27.

[10] KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 195. ed. Araras, SP: IDE, 1996. Cap. XV.

[11] NOVAES, Adenáuer Marcos Ferraz de. Psicologia do evangelho. 2. ed. Salvador, BA: Fundação Lar Harmonia, 2001. Cap. 15.


CAMARGO, Jason de. Educação dos sentimentos. 5. ed. Porto Alegre: Letras de Luz, 2003.

DE LUCCA, José Carlos. Sem Medo de ser Feliz. 1. ed. São Paulo: Petit, 1999.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Cidades além

AS MARAVILHOSAS "CIDADES DO ALÉM" AOS QUE TEM "MERECIMENTO".


As descrições do espírito André Luiz podem ser consideradas como fruto de sua imaginação? Uma das “portas de entrada” de muitas pessoas ao conhecimento espírita é o livro “Nosso Lar” (1), de autoria de André Luiz pela psicografia de Francisco Cândido Xavier. Quando de seu lançamento, o movimento espírita brasileiro se dividiu em duas atitudes opostas. Uma parte claramente duvidava da descrição de casas, árvores, aves e cidades no plano espiritual e outra anunciava o livro como uma nova revelação espírita, complementar à Codificação feita por Kardec.

Essa segunda posição foi refutada por J. Herculano Pires (2) que apontou que essa existência de reproduções do mundo material no Plano Espiritual já havia sido prevista nos livros da Codificação e até descrita em alguns artigos da Revista Espírita.

Só para citar um argumento de Kardec sobre o assunto, reproduzimos trechos do capítulo “Do Laboratório do Mundo Invisível” de “O Livro dos Médiuns” (3). O Espírito São Luiz responde a Kardec com as seguintes informações.

“Sobre os elementos materiais disseminados por todos os pontos do espaço, na vossa atmosfera, têm os Espíritos um poder que estais longe de suspeitar. Podem, pois, eles concentrar à sua vontade esses elementos e dar-lhes a forma aparente que corresponda à dos objetos materiais.”

Kardec analisa as respostas de São Luiz e conclui que “o Espírito atua sobre a matéria; da matéria cósmica universal tira os elementos de que necessite para formar, a seu bel-prazer, objetos que tenham a aparência dos diversos corpos existentes na Terra. Pode igualmente, pela ação da sua vontade, operar na matéria elementar uma transformação íntima, que lhe confira determinadas propriedades. Esta faculdade é inerente à natureza do Espírito, que muitas vezes a exerce de modo instintivo, quando necessário, sem disso se aperceber. Os objetos que o Espírito forma, têm existência temporária, subordinada à sua vontade, ou a uma necessidade que ele experimenta. Pode fazê-los e desfazê-los livremente.”

Infelizmente essa refutação de Herculano tem sido mal interpretada por aqueles que, ainda nos dias de hoje, compartilham da primeira posição, ou seja, de incredulidade quanto às descrições de André Luiz. Muitas vezes Herculano Pires é citado como alguém que não acreditava nas descrições de André Luiz, considerando como fantasias, o que não corresponde à verdade.

Kardec estabeleceu regras para a aceitação de informações vindas dos Espíritos, o que ficou conhecido como Concordância Universal do Ensino dos Espíritos: a mesma informação precisaria vir de Espíritos diferentes, através de médiuns diferentes, para ser considerada fidedigna.

Temos visto, com freqüência até crescente nos últimos tempos, questionamentos em relação às descrições de André Luiz, até por parte de estudiosos da Doutrina, que relativisam essas descrições, como sendo fruto da imaginação do Espírito e, alguns, até as atribuem ao médium.

Seria necessário lembrar que o livro “Memórias de um Suicida” (4), do Espírito Camilo Cândido Botelho, pela psicografia de Yvonne do Amaral Pereira, igualmente descreve um hospital completo, com detalhes arquitetônicos e aparelhagem sofisticada, mas isso parece não convencer esses críticos. Embora esse livro tenha sido psicografado muitos anos antes do seu lançamento, como esse lançamento foi posterior a “Nosso Lar”, os críticos alegam que poderia ter havido algum grau de influência sobre o Espírito autor ou sobre a médium.

Porém esses críticos parecem ignorar trechos bastante reveladores de obras estrangeiras que, muito antes dos livros nacionais, já descreviam (talvez com menos detalhes) as mesmas coisas que André Luiz descreve.

Raymond

Em “Raymond” (5), obra importantíssima – infelizmente caída no esquecimento – de Sir Oliver Lodge, o filho do autor comunica-se por diferentes médiuns descrevendo um Plano Espiritual tão semelhante à Terra que o próprio autor, levado pelo excesso de escrúpulos científicos, se recusa a aceitar a descrição como confiável, limitando-se a incluí-la no livro com ressalvas.

Raymond informou: “Eu vivo numa morada construída de tijolos – e há árvores e flores, e o chão é sólido. Se a gente ajoelhar-se na lama, aparentemente suja a roupa.” Devido ao seu interesse por engenharia, o espírito do rapaz comenta que o que mais o preocupava era “como a coisa é feita, como é composta. Não descobri ainda, mas tenho uma teoria. Não é original minha – foi formada com palavras colhidas aqui e ali.”

Em seguida, Raymond, que nunca fora interessado pelos princípios espíritas, descreve – com suas palavras – o fluido cósmico universal: “Há qualquer coisa que está sempre subindo do plano da terra – qualquer coisa de forma química. A medida que se ergue até nós, sofre várias mudanças e solidifica-se em nosso plano.”

Sir Oliver, com seu sentido extremamente científico, não aceita sem questionar as informações do filho e escreve: “Algumas dessas coisas são bastante divertidas, mas as referências ao viver do outro lado não constituem matéria verificável.” Mas complementa que “ultimamente têm aparecido obras que dão informações sobre o outro lado, de um modo positivo e categórico; muito possível também que os médiuns se deixem influenciar por obras.”, mostrando um ceticismo científico até exagerado.

Raymond informa que “não tem necessidade de comer. Mas vê pessoas que a tem; diz que a essas é dado alguma coisa com as aparências dos alimentos terrestres. Um camarada chegou outro dia e quis um charuto. Julgou que eles jamais poderiam fornecer-lhe isso. Mas há cá laboratórios que manufaturam toda a sorte de coisas. Não como fazem na Terra, mas com essências, éteres, gases. Não é o mesmo que no plano terrestre, mas fizeram algo que parecia charuto.” Essa necessidade do fumo e outros vícios terrenos e o seu atendimento são tema de um trecho de “Nosso Lar” onde se conta que, há muitos anos, era costume atender a esses desejos na colônia Nosso Lar, mas que o atual Governador havia eliminado esse tipo de coisa, após grande oposição, embora mantivesse ainda os alimentos.

Outro assunto que espanta muitos leitores é a descrição, em diversos livros, de animais no Plano Espiritual. André Luiz descreve pássaros e cães. Raymond conta que encontrou sua cadela Curly e conta que “tigres e leões ele não viu ainda; mas vê cavalos, cães, gatos e aves”.

O irmão de Raymond, Alec, vai procurar uma médium para contato com o espírito do irmão e admite que acha difícil compreender as descrições sobre o local onde estava. Raymond, extremamente paciente, explica que o lugar era “tão sólido que ainda não venci os obstáculos. Admiravelmente real.” Conta que encontrou água, mas não sabe se encontrará o mar.

Dotado de uma grande inteligência, Raymond se adianta às idéias que poderiam advir de suas descrições e diz que “gostou de ver ruas e casas” e que “em certo tempo pensei que podiam ser criações do nosso pensamento.”

Já em “A Crise da Morte” (6), de Ernesto Bozzano, uma das mensagens pertence ao espírito de Jim Nolan que descreve como foi recebido por sua avó no mundo espiritual.

“E me levou para longe dali, para sua morada. Uma vez lá, disse-me ser necessário que eu repousasse e dormisse. Deitei-me e dormi longamente…

_ A morada de que falas tinha o aspecto de uma casa?

_ Certamente. No mundo dos Espíritos, há a força do pensamento, por meio do qual se podem criar todas as comodidades desejáveis…”

Bozzano se detém um pouco sobre essa afirmação a que chama “um dos detalhes fundamentais a cujo respeito todos os Espíritos estão de acordo” e ainda complementa que “permite explicar, resolver, justificar todas as informações e descrições aparentemente absurdas, incríveis, ridículas, dadas pelos Espíritos que se comunicam, a propósito da vida espiritual”.

“Nosso Lar” é de 1944; “A Crise da Morte” de 1926 e “Raymond” de 1916, ou seja, quando André Luiz descreveu uma cidade no Plano Espiritual, essa questão já havia sido abordada há quase 30 anos e resolvida como fidedigna há pelo menos 18 anos. Como essas informações puderam ser consideradas uma “revelação” ou “fruto da imaginação do Espírito” é difícil de se compreender.

(1) Nosso Lar – André Luiz – psicografia de Francisco Cândido Xavier
(2) “Há uma revelação luisina?” Crônica publicada no Diário de São Paulo sob pseudônimo Irmão Saulo – J.Herculano Pires
(3) O Livro dos Médiuns – Allan Kardec
(4) Memórias de um Suicida – Camilo Cândido Botelho – psicografia de Yvonne A. Pereira
(5) Raymond – Sir Oliver Lodge
(6) A Crise da Morte – Ernesto Bozanno

Publicado na RIE Revista Internacional de Espiritismo
Novembro/2013

Justa homenagem



A Prefeitura de Uberaba recebeu ontem, a obra do Memorial Chico Xavier. O espaço, que abrigará a obra do médium, propiciará à comunidade atividades sociais e culturais, com capacitações, palestras, seminários e oficinas. No local também aconteceu a entrega da Comenda da Paz Chico Xavier, que nasceu de iniciativa do prefeito Paulo Piau, enquanto deputado Estadual, sendo uma das mais importantes homenagens do Governo de Minas Gerais. Foram agraciados com a comenda: Aldo Rabelo (Ex-ministro da Defesa), Ananias Neves Ferreira (advogado), Joana Giorgeti (presidente da Associação de Promoção do Menor), José Ricardo Braga (administrador), Maria Elisa Dias (pedagoga), Fábio Alves dos Santos (professor – In memoriam), Albergue Fraterno Bezerra de Menezes, Associação dos Voluntários do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Grupo Santa Casa de Belo Horizonte e Núcleo de Voluntários de Combate ao Câncer de Sete Lagoas.

Em seu discurso, Alberto Alves destacou o empenho do prefeito Paulo Piau para retomar a obra do Memorial no início do mandato, e o trabalho feito em parceria com a prefeitura, que resultou na entrega da obra que será um legado para a cidade de Uberaba, principalmente na área do turismo.


O Memorial foi construído com recursos do Ministério do Turismo, na primeira e segunda etapa, na ordem de aproximadamente R$ 4,3 milhões, e a terceira etapa foi realizada com recursos da prefeitura na ordem de R$ 620 mil. O prédio conta com área de exposição interna, anfiteatro, espaço para livraria, lanchonete e área externa com arquibancadas. O prefeito Paulo Piau destacou a importância da obra para a cidade, falou sobre as parcerias para que o Memorial se tornasse realidade e parabenizou os homenageados pela Comenda. Durante o discurso Piau revelou que os recursos para a compra do mobiliário já estavam empenhados pelo Ministério.

Mediante a entrega da obra, a Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo passa a gestão à Fundação Cultural, que assumirá a operacionalização do Memorial e já dispõe de um museólogo que organizará o espaço para ser inaugurado. “O recurso para o mobiliário, da ordem de R$ 480 mil já está empenhado, e acreditamos que em breve será liberado pelo ministério. Assim faremos uma ocupação como deve ser: de forma correta e organizada”, disse Piau, afirmando ainda, ao filho de Chico que estava presente, Eurípedes Higino, que o local será gerido pela municipalidade sem fins lucrativos.

Vale lembrar que já está em elaboração um Plano de Ocupação do Memorial Chico Xavier, para que todo o material doado e o acervo referente ao médium sejam distribuídos de maneira harmônica e agradável ao público. Muitas doações já foram realizadas para comporem o prédio dedicado ao Chico Xavier. Até o momento o acervo captado já conta com 187 obras escritas pelo médium, além de um acervo de fitas e livros sobre sua história. Também foi realizada doação de um holograma que passará na parede imagens do Chico, e a mesa e a cadeira onde o Chico realizou os primeiros receituários, doado pela Comunhão Espírita Cristã de Uberaba.

Ao finalizar a solenidade, o vice-governador Antônio Andrade destacou a importância da obra para Uberaba e para Minas. Ele também revelou que está trabalhando para atender demanda do deputado Tony Carlos, para anexar a área da Cohab (Companhia Habitacional de Minas Gerais), de 2 mil m² ao Memorial.

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Psicenter - foto Kirlian - estudos