terça-feira, 23 de setembro de 2014

Dificuldades e entendimento na prática espirita

Das Dificuldades do
Espiritismo Prático




Iniciemos pela definição das palavras. Dificuldade é substantivo feminino e indica qualidade de difícil, ou o que não é fácil, obstáculo, objeção, impedimento; prático é adjetivo, concernente à prática (ação ou efeito de praticar, experiência, uso pelo exercício, aplicação da teoria) ou aquilo que não se limita à teoria. E a definição de Espiritismo, dada pelo próprio Codificador é que O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal (1).
 
Quando se fala em Espiritismo prático, logo pensa-se em prática mediúnica, mas a definição do próprio vocábulo prático, como acima indicado, refere-se também à aplicação da teoria, além da própria ação ou efeito de praticar. Ora, isto vai além da prática mediúnica, no intercâmbio com os espíritos, e alcança a questão da vivência prática dos ensinos espíritas. Não fica, portanto, limitado à prática da mera participação em fenômenos mediúnicos e sim abrange também a vivência ou prática de hábitos coerentes com a proposta espírita.

Podemos, em conseqüência, analisar o assunto sob as duas óticas.
 
No último parágrafo do item XII da Introdução de O Livro dos Espíritos (2), Kardec pondera sobre a questão das mistificações, entre erros e equívocos, como uma das dificuldades do Espiritismo prático. Aliás, todo aquele item da citada introdução aborda a questão, referindo-se a uma das dificuldades do intercâmbio mediúnico. E no segundo parágrafo do item XVII da mesma introdução (3), já ao final, comenta sobre o fim grande e útil dos estudos espíritas e mesmo do intercâmbio mediúnico: o do progresso individual e social. Aí já podemos enquadrar o assunto como uma das dificuldades do Espiritismo prático sob o ponto de vista moral. Ou, em outras palavras, o da vivência dos ensinos.

Podemos concluir, pois, que o Espiritismo prático não está restrito à prática mediúnica, mas abrange, repetimos, a prática da vivência, muito além da prática mediúnica.

Aí surge, com toda expressão, a importância dos estudos espíritas e dos núcleos inspirados pelo ideal espírita, pois que fomentador dessa autêntica prática do Espiritismo. Aliás, o compromisso maior, prioritário, dos grupos espíritas é exatamente ensinar Espiritismo, propiciando estudo e divulgação dos postulados espíritas. E isto de maneira sadia, didática, atraente, motivadora do interesse pelo estudo e vivência do Espiritismo.

Neste ponto, podemos indagar quais são as dificuldades?


Sob o ponto de vista do intercâmbio mediúnico.

Se analisadas do ponto de vista do intercâmbio mediúnico espírita, podemos relacionar a questão da insegurança dos novatos; a ausência do estudo doutrinário - sempre causadora de distorções e absurdos; a indisciplina na prática quanto a horários e assiduidade; a falta de comprometimento com a causa; a rivalidade entre integrantes ou entre grupos; a priorização do fenômeno em detrimento do estudo; o endeusamento de médiuns e/ou dirigentes; a confiança cega nos espíritos comunicantes; a obsessão; a liderança distorcida; as mistificações; a introdução de práticas estranhas, entre outras tantas dificuldades. Claro que variáveis de grupo para grupo, de médium para médium, e até de região para região. Mas podemos asseverar que sempre fruto da ausência do estudo doutrinário corretamente conduzido.


E onde a solução?

No próprio estudo, em diálogos construtivos de reuniões que visam exatamente esclarecer o participante de reuniões mediúnicas. Para a prática mediúnica este recurso do estudo é insubstituível e O Livro dos Médiuns é obra insuperável. Nele se encontram as diretrizes para a correta compreensão e prática do fenômeno. Já na Introdução da monumental obra, Kardec assinala que "A experiência nos confirma todos os dias, nesta opinião, que as dificuldades e as decepções, que se encontram na prática do Espiritismo, tem sua fonte na ignorância dos princípios desta ciência..." (4).

Entre capítulos importantes, destacamos aos leitores o capítulo XXIV (5), que trata da Identidade dos Espíritos. Exatamente no item 267 (em 26 princípios) Kardec enumera os meios de reconhecer a qualidade dos espíritos e no item 268 (em 28 questões), traz perguntas sobre a natureza e a identidade dos espíritos.

Notem os leitores que este é apenas um dos temas. Existem outras dificuldades que o estudo pode dirimir. Destacamos os itens acima pela importância didática do assunto e que muito pode auxiliar na superação de dificuldades e decepções na prática mediúnica. Sugerimos, pois, ao leitor, com todo empenho, a consulta a essas fontes, pois fica inviável a transcrição neste pequeno espaço.

Também, no capítulo XXVII da mesma obra (6), que trata Das Contradições e das Mistificações, outro tema importante no rol das dificuldades, o estudioso e pesquisador espírita poderá encontrar muitas respostas. Os itens 299 a 301 oferecem subsídios para troca de muitas idéias e na superação de muitas dificuldades.


Sob o ponto de vista da vivência espírita

Talvez aqui as dificuldades sejam maiores. No item anterior verificamos que o estudo pode superar muitos desses obstáculos. Aqui, porém, surge a questão da modificação interior de cada adepto espírita. É interessante que a postura aqui interfere no assunto tratado no item anterior. Pois é exatamente a carência moral que mantém o orgulho, o egoísmo, a inveja, que muitas vezes pode estar trazendo dificuldades para a prática do intercâmbio propriamente dito.
Mas, sem pensar agora na questão do intercâmbio e sim na fundamental questão da vivência individual e coletiva do ensino espírita, verificamos que as dificuldades aqui também são consideráveis.

Comparecem a inveja, o ciúme, a disputa, a maledicência e outros importantes inimigos da felicidade humana e da paz que se quer construir.

Se analisarmos qualquer instituição e solicitarmos aos presentes numa reunião de avaliação dos problemas que os estejam afetando, descobriremos que no fundo dos problemas estão presentes, com toda a força, o orgulho e o egoísmo. Também a inveja e o ciúme, a imposição de idéias, o autoritarismo, as tentativas de domínio, o desrespeito às diferenças, a ausência de solidariedade. Mas acima de tudo, a ausência da caridade, que segundo Jesus, é a indulgência, a benevolência, o perdão (7). Sentimentos sempre ausentes onde a irritação, a impaciência, a crítica e demais defeitos morais estão agindo.

É aí que surgem as divisões, as divergências.

E podemos perguntar novamente:

Onde a solução?

Recorramos à obra basilar do Espiritismo: O Livro dos Espíritos.

Na Conclusão, item IX, 4º parágrafo (8), o Espírito Santo Agostinho indica que as dissidências são mais de forma que de fundo e que os espíritas deverão unir-se no objetivo comum: o amor de Deus e a prática do bem. E mais: o objetivo final é um só: fazer o bem. Na mesma Conclusão, no item VII, há ainda a classificação dos verdadeiros adeptos do Espiritismo e que são apresentados como os que praticam ou se esforçam por praticar essa moral.

Conclusão

Verifica-se, portanto, que as dificuldades são oriundas da falta de conhecimento (ausência do estudo) e da falta de vivência prática (ausência do esforço de melhora individual).

O Espiritismo prático está portanto muito mais na vivência do comportamento espírita que na prática mediúnica, mas em ambos as dificuldades existem em função das próprias dificuldades humanas em agir coerentemente com a teoria já a disposição.

Na prática mediúnica, quando inventamos ou quando não estudamos criamos dificuldades; na vivência quando desprezamos o aspecto principal, ou seja, o esforço do auto aprimoramento moral, criamos as dificuldades todas que aí estão.

Estudando o Espiritismo e esforçando-nos por incorporá-lo ao próprio comportamento será, pois, o caminho de superação das dificuldades do espiritismo prático.

Por tudo isto, a título de conclusão, sugerimos aos leitores a leitura reflexiva do item 350 (capítulo XXIX da Segunda parte), de O Livro dos Médiuns (9), onde o Codificador convida as sociedades espíritas, composta naturalmente dos adeptos do Espiritismo, a se estenderem mãos fraternais e buscarem viver o ideal maior da Doutrina Espírita, ou seja, a vivência da união, da simpatia, da fraternidade recíprocas. E aí estarão superadas as dificuldades do Espiritismo prático.
 Notas:
(1) em O Que é o Espiritismo, 31ª edição FEB, 1987, Rio (RJ), Preâmbulo, página 50.
(2) página 38 da 78ª edição FEB, 1997, Rio (RJ), tradução de Guillon Ribeiro.
(3) página 46 da 78ª edição FEB, 1997, Rio (RJ), tradução de Guillon Ribeiro.
(4) 29ª edição IDE, 1987, Araras-SP, página 7, tradução Salvador Gentille.
(5) 29ª edição IDE, 1987, Araras-SP, página 294, tradução Salvador Gentille.
(6) 29ª edição IDE, 1987, Araras-SP, página 364, tradução Salvador Gentille
(7) Questão 886 de O Livro dos Espíritos.
(8) página 492 da 78ª edição FEB, 1997, Rio (RJ), tradução de Guillon Ribeiro.
(9) página 406 da 29ª edição IDE, nov/1993, tradução de Salvador Gentille.

Artigo publicado na revista REFORMADOR, de junho de 2003 e  reproduzido com autorização do autor.

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